Este blog não pretende absolutamente nada, não tem nenhum compromisso com a verdade, não é um passatempo, nunca foi um diário e nem parte de estudos ou reflexões pessoais, nada disso. Aliás, ele não tem a menor razão de existir, mas existe mesmo assim, como a maioria das coisas.
Sertralina (para cantar feliz e alcoolizado no ritmo de cajuína, do caetano veloso, sem ligar para o português)
desistirmos, aposentar nossas narinas
extraviar, sair da roda na surdina
cortar os pulsos, se enforcar com a cortina
tomar veneno e por a culpa na cantina
ligar o gás, se sufocar numa cabina
depois um tiro atravessando a retina
é mais popular, mas se é com faca é coisa fina
Até agora já aprendi que estou aqui para morrer um dia e até lá ver morrer todo dia o que já cumpre a sua hora. Até agora aprendi que ainda estou aqui e até agora. Se depois do depois aprenderei o contrário, eu não sei ainda. Mas já aprendi que tenho formato de estrela, como a maioria dos vivos e que tenho, assim, dedos ou cabelo nas pontas (as mãos acariciando outros cabelos, os pés se fundindo com o barro comum, os cabelos se embaraçando noutros tantos dedos, como todo mundo). Até agora suspiro. Então, sou toda eu uma corrente e parte de uma maior, infinita e minha barriga está presa por um cordão invisível à barriga da Eva primeira e da Ave última deste universo. Que preciso ainda aprender a ser Maria, aprender a parir um Jesus para ter a poderosa experiência de cantar sobre um berço. Que nem sempre que falei fui inspirada pelo divino espírito santo, mas que espero pelo perdão e socorro da santíssima providência com todo o fervor, sinceramente. Que meu vértice ancestral comemora, incha, pulsa, faminto e minha boca goza, desbocada. Que as palavras não têm o paladar que aparentam quando na minha própria língua. Que o silêncio não basta, mas tem que bastar, porque eu nunca sôo bem em voz alta. E que respiro mesmo assim, embora ainda não o saiba fazer na perfeição. posted by Amana Rodrigues
7:29 AM
Desde sempre a sua presença me sufocou e até hoje ainda sufoca, embora eu já esteja tão longe. Desde a sua chegada que o movimento é sempre de fuga quando sua história aparece. Eu não posso contra a sua história, ela é forte demais. Eu sou fraca, não convenço ninguém. Antes de você chegar eu já precisava de ajuda, mas ainda não sabia. Você foi tão evidente que levou tudo, de todos, de uma vez só. Mas não foi culpa sua, não tinha nada que você pudesse fazer além de querer sobreviver à tragédia. Então, você cresceu pra fora e eu cresci pra dentro. E nenhum de nós pode dizer que está feliz neste momento.
Ô meu filho, chora não...
chora não que a dor não passa
nem hoje nem quando casa
o mundo é assim mesmo, coração
chora não, filhim, chora não
se cê chorar a mãe chora
dessa tristeza de choro
e a choradeira em coro
embora até seja bonita
só deixa a mãe mais aflita
vem cá, meu anjim, no meu colo
afunda os olhim no meu peito
inunda, que se tivesse jeito
sua mãezinha já tinha
destransformado essa vida
mas como não tem saída
que não seja a saída da sorte
vamo cumprir nossa morte
nos degraus dessa subida
Vem cá, filhim, lê um livro
cata lenha, acende foguim
ouve disco, canta música
bebe água da bica, refresca
brinca com cachorrim, faz festa
faz amor, faz carinho, se liberta...
E presta atenção pra poder
ver inda ao longe esse trem
que já tá logo ali na curva
então, limpa essa vista turva
e enxuga os olhinhos, meu bem
pra ver além da madrugada
porque o dia não tarda e já vem"
A mulher tinha mesmo uma figura engraçada e o que eu pensei dela não foi bonito, confesso, mas meu o riso foi tão por dentro que eu nunca ia imaginar que ia pagar por ele, porém sinto que paguei. Mal cheguei ao seu lado, ela se virou de repente e pregou os olhos nos meus, assim, forte. Pra mim foi muito tempo que eu estive ali, pregada, como se tivesse sido descoberta, porque a dona não falava nada, só me olhava com dois olhos enormes, parecia um urso de pelúcia áspera antiiiigo, feeeeio que a tia Lucila tinha, ou ainda tem, sei lá. Ela me olhou no olhos por anos, até que falou, depois a outras pessoas também falaram, mas eu não ouvi nada, só senti um cheiro incrível vindo dela que só depois de um tempão consegui identificar: era cheiro de jardim. Voltei totalmente tonta daquela presença, tonta de verdade, trombando nas coisas. Então fiz o que tinha que fazer, lembrei do que tinha que lembrar, levei o que tinha que levar e tentei ser simpática, apesar da cara besta. Depois fui ficar sozinha e pedir perdão e explicar sabe-lá-deus-para-quem que era só brincadeira e não carecia de lição, mas por via das dúvidas fui pegar meu cristal fumê (que me mandaram comprar pra ajudar a colar a cabeça no pescoço), mas quando eu o tirei da bolsa sua correntinha arrebentou, tentei ser rápida com a mão, mas foi tudo muito mais rápido para o chão e o meu cristal fumê quebrou...
AmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmana
AmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmana
Amana é mesmo um nome lindo. É uma pena ele não ser eu. Mas já fico contente em caminhar ao seu lado e dizê-lo algumas vezes.
Quando nos confundem aceito como elogio e nunca corrijo. Envaideço: "Sim, Amana sou eu", se me perguntam. Porque é bom dizer.
AmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmana
AmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmanAmana
Eu faço uma reverência. São tantas mãos que já não sei quais são as minhas. Não consigo precisar se o que toco é mesmo aquilo que vejo. A minha avó me contou da lembrança doce da avó dela e junto dessa lembrança veio um nome que eu nunca tinha ouvido antes. Ana. A avó da da minha avó era Ana e eu nunca soube que tinha ela para saber. Senti que foi uma descoberta tão tardia que chegou a me apavorar. As pessoas evaporam. A verdade é feita do nada no estado mais puro que palavra nenhuma pode alcançar. O verbo inicial era imperativo: vá. "Deus está aqui - ele está aqui - tão certo quanto o ar que eu respiro. (Aleluia) Tão certo quanto o amanhã que se levanta. Tão certo quanto eu te falo e tu podes me ouvir." Minha avó cantava assim. Ninguém precisa duvidar ou acreditar em mais nada do que isso. A verdade é mesmo essa e se não for, não importa. Porque ela também se dissolve e vira a pura mentira. E a mentira pura nada mais é do que nada mesmo, mas também, se não for, tanto faz. Ave Ana. Ave Maria Zezé. posted by Amana Rodrigues
2:22 AM
sinto sua falta, mas muito mais a sua presença. mesmo aqui nesta cidade de concreto muito e natureza pouca, consigo sentir intimamente o chão de terra que você deve estar pisando exatamente agora. sinto o cheiro da cozinha fresca e lá de baixo, perto do poço, dos seus ares em torno de mim. sinto você lendo comigo e partilhando impressões do meu primeiro e tardio livro da Clarice, dividindo uma garrafa de qualquer coisa. você é meu amigo. eu posso ouvir daqui a sua risada sozinha e doida para a tv, vindo aí do seu quarto, que sempre me faz rir sozinha e doida sem saber do quê... há pouco tempo estive com uma figura interessantíssima e ao falarmos de você, pude dizer pra ela e pra mim mesma (pela primeira vez), que o meu pai é um cara livre. repeti isso para mim algumas vezes e é verdade, você é livre. sinto muito a sua presença quando tenho que dizer a mim mesma que não vale a pena dar importância ao que não é importante, mesmo que você nunca tenha me dito isso. e não disse. quando estou triste, ouvir sua voz é remédio e não existe outro no mundo que seja capaz de mudar tão instantaneamente o meu estado de humor. acabei de levar a mão ao peito para ajudar o coração e é incrível como nossa textura é igual, a mesma pele friinha e peganhenta que eu sinto quando lembro dos nossos abraços sem motivo. a sua trilha sonora, que é a melhor e mais variada de todas, ecoa humildemente desse lado de cá, para a portuguesada indiferente (porque nunca te viu passar cantando "bwana, bwana/ não sei cozinhar/ mas sou carinhosa/ e tenho talento/ pra boemia/ corre sangria nas minhas veias/ volúpia...") que não saca nada da fina interpretação. então eu rio com você da cara dos manés, respondo às piadas que você faz. nós somos malvados e irônicos às vezes, mas extremamente doces. eu racho o bico e você quase chora. é assim todo dia, muito bom ter você por dentro. "...o seu amor me cura de uma loucura qualquer..." e realmente não posso ser menos brega, porque isso é paixão de lascar e eu estou aqui, deste lado do mar, completamente inundada... e dá me cá esse vinho do porto. um brinde a você, meu velhinho. posted by Amana Rodrigues
4:30 PM
"Mañana es domingo
dia de respingo
se casa Juanito
con un pajarito
quien es la madrina?
D. Escotafina
quien es el padrino?
D. Pedro Carreras
que corta los culos
con unas tijeras"
tempo. parada escutando o som das coisas sendo ao meu redor e em mim. o colchão sob mim está sendo, solitário, estou sentindo. a estante e o aquário com a água e os tritões ibéricos e a bolota de musgo rodopiante dentro. tudo sendo, cada coisa e ao mesmo tempo. o guarda-roupa com as roupas, o guarda-chuva e a chuva que ainda vai chover, mas agora não. o céu que está mudando, alguma enxurrada, a estátua do baco plantada na praça da república, todo o tempo. só o tempo não está sendo nada, agora. aliás, o tempo nunca pode ser. a rua é. a cidade é. o mar é. tudo segue sendo. o cachorro na esquina, a esquina, a televisão com o tubo e os fios e a poeira, tudo o que não é o tempo, desde sempre e pra sempre, sendo. eu mesma sinto-me ser, agora mesmo, a todo vapor. e embora também sinta o tempo me lambendo a pele e os cabelos e os olhos e os órgãos e tudo o que está sendo em mim e fora, ele não está aqui, nem em lugar nenhum. posted by Amana Rodrigues
5:59 AM
Rápido: gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando e girando e gerando aleatoriamente. posted by Amana Rodrigues
5:40 AM
Posso ouvir, neste exato momento, da minha varanda, o som que vem da rua paralela à minha casa onde está tocando um grupo brasileiro de samba, forró e bossa nova da melhor qualidade que eu queria muito ter ido ver. Há pouco tava tocando "Tinha uma vendinha no canto da rua, onde o mangaieiro ia se animar, tomar uma bicada com lambu assado e olhar pra Maria do Joá" e era como se eu estivesse já cansada da festa, num dos quartos lá do sítio, ouvindo o Xisto e coro dos mais resistentes vindo lá da cozinha. Se não fosse o frio que resolveu fazer hoje, ficava lá fora até as músicas acabarem, só para lembrar mais um pouco... Se bem que lembrar sozinha pouca graça tem. Eu devia mesmo era ter ido lá, encontrar com a gente desconhecida, beber e emocionar alguma coisa, levar o meu banzo para cantar. posted by Amana Rodrigues
4:00 AM
Você não me conhece. Eu sou um cachorro por dentro. Eu sou muito mais que isso, muito mais que o que pode ver. Em minha alma mora um bicho que não reconhece as palavras e nunca teve um nome. Você não sabe quem eu sou ou onde eu já estive. Sete vezes mais velho que eu, sete vezes mais faminto, sete vezes mais desperto este cão minha alma toda habita. Você não pode compreender os lugares onde minha alma passeia. Sem recompensa que o recompense e sem castigo que o castigue o cão desconhece o poder esmagador do se. Você não sabe. Não há condição que o condicione. Você nunca me viu além da superfície que eu mesma nunca enxerguei. Ele não se lastima e não uiva à espera. Não é macho e nem fêmea. Você não compreende. O cão dentro de mim é um animal inteiro. posted by Amana Rodrigues
2:09 AM
O jugo ameaça em voz alta partir, mas não tem forças para arrebentar a arcada.
Em vez disso, os bois silenciosos vão se distanciando discretamente, numa lentidão indolor.
O artefato ignorante segue sonâmbulo e flutuante, sem conceber o fato, a falta, o desamor.
Uma canga, por si só, não poderia conceber ou rebentar nada. posted by Amana Rodrigues
11:53 PM
A bagunça na minha casa foi tanta e por tanto tempo que só agora que comecei a arranjar espaço para as coisas e forma de ajeitá-las foi que percebi ter perdido um sentimento importante. Já tinha dado pela falta há algum tempo, mas julgava que ele pudesse estar sob uma montanha de roupas ou coisa assim e que depois da faxina, acabaria por ressurgir naturalmente de algum lugar óbvio, por onde eu teria passado várias vezes sem o notar, mas ainda não encontrei nada, nenhum sinal dele e nenhum sobressalto. posted by Amana Rodrigues
11:31 PM
Só não te amo mais porque sua flor na lapela é de pano e não brota do peito.
Resta a borboleta que traz no cabelo, mas eu já reparei que é de plástico e não pode voar se quiser.
De que adianta essa flor de pano no peito e a borboleta de plástico no cabelo?
Você acha que eu vou acreditar que essa beleza toda vem de dentro?
Eu só vou te amar inteira quando a flor te romper a pele, a roupa e dar de lamber à borboleta que nela escolher pousar. posted by Amana Rodrigues
3:07 AM
eu dormi e acordei no seu veleiro. foi
de repente, mas era óbvio que seria assim
dentro do seu peito já casamos para a vida toda
e morremos e reencarnamos amor-puro-para-sempre
nossas festas já foram a alegria maior de cada dia
e reinavam a simplicidade, a descoberta, o encantamento
eu velejava com você e seus amigos e os meus e toda noite
era assim
tinha um sol batendo de leve no rosto e um vento bom na nuca
um arrepio, uma encolhida nos ombros, um suspiro de satisfação
e mais o cheiro de sal no ar, o alimento bom, a felicidade e o balanço
apesar do espaço pouco, do tempo curto que ia passar e passou, apesar do cimento que não era mar, velejamos juntos
uma vida inteira antes de nos despedirmos.
D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R INFINITAMENTE. posted by Amana Rodrigues
3:23 PM
Eu lembro muito das suas mãos. Das suas unhas redondinhas, das articulações grossas, da dureza. Eu lembro das suas mãos fazendo pão de queijo, abrindo uma porta, estendidas para pegar alguma coisa, sacudindo depois de molhadas, carregando um neném. Eu lembro da sua voz com raiva, lembro muito, mas também lembro da sua voz com as crianças e com os velhos da nossa família. Lembro da sua voz com medo, da sua voz de susto, da sua respiração mudando ao receber uma notícia ruim pelo telefone. Lembro de você chorando, os dedos rijos entre os cabelos, os olhos para o céu e a falta das respostas. Lembro das palavras. Eu me lembro muito bem de todas as palavras. Lembro de você dormindo e de você acordando, todos os dias, fazendo os barulhos iguais até ir trabalhar. Eu lembro do som dos seus passos, do seu espirro, do seu silêncio. Eu lembro de você muitas vezes calada, sentada num sofá ou em algum outro lugar sozinha, mas quase dava pra ouvir a gritaria da sua cabeça. Eu lembro de você passando de madrugada. Lembro de sentir a sua presença no escuro, de saber que você estava lá antes dos olhos se acostumarem e eu conseguir ver seu vulto insone na penumbra. Lembro de você falando mamãe para a minha vó. Lembro de você solar, com suas roupas bonitas e coloridas, lembro de um monte delas em você. Lembro dos cabelos molhados penteados para trás, do cheiro bom, do batom, da base, do lápis azul. Lembro de você cantando feliz nas festas, você tontinha, sorridente, com os olhinhos fechados, dançando um belisquete. Lembro dos gritos alegres de ô cumpadi ou qualquer coisa assim. Lembro de você cuidando e brincado com os cachorros do seu jeito. Eu lembro da sua alegria, da sua intimidade, da sua natureza, da sua praticidade, sua barriga, seu riso, suas pernas, seus seios, seus dedos, seus anéis, seu pescoço, seu cabelo, seus olhos, sua testa, sua ira, seus pés e sua paz. Lembro de você no seu diário que eu lia apaixonada. Lembro de imaginar você menina e da vontade que eu tinha de te conhecer assim. Lembro de tentar adivinhar seu mundo antes de mim, sua leveza, seus desejos, sua juventude. Lembro de desejar quase desesperadamente e do fundo do coração, que você fosse muito feliz. Eu lembro dos abraços das chegadas, dos abraços das partidas e dos abraços das comemorações. Lembro dos carinhos curto e intensos de ano novo, dos desejos sinceros e de não precisar falar. É pena a pele não ter tanta lembrança quanto os olhos e os ouvidos. Lembro da falta que eu sentia (e ainda sinto e cada dia mais) de estar mais em você, encostada, grudada, dentro. Lembro de você brincando comigo, preparando uma mamadeira pra mim, trinta mil anos atrás.
Algo soa familiar? heheh... Mas é portuga mesmo, credita? Dá pra notar o brazuca forçado na hora do "cáfê".
São as sobrinhas da Geni pegando o zepelin pra fazer a vida aqui ao pé de minha casa:
São Paulo 451
(Belle Chase Hotel)
Naquela praça suja com merda de pombo, patrulhada pelo sexo,
ele chega ás quatro polindo o sapato p’ra vender o seu amplexo.
E os homens passam, notam seu bigode, mas na coxa se extravasam.
Veio sua amiga, a loira José, convidando para o café.
E ao segundo brandy, já José se expande, esboroando seu baton:
“Amanhã não estaremos aqui,
veja se bebe um pouco e sorri e tira esses olhos do chão!
O futuro é lindo: eu já vi!
E o avião vai directo para lá!
Vamos embora dessa aflição!”.
E Manuel morena tomou os seus calmantes por causa dos joanetes.
E disse cansado que estava assustado pois nunca tinha voado:
“E se há um acidente? E se o passaporte?
Será que não sentes o medo da morte?
Me dá um cigarro!
Me dói a cabeça!
P’ra quê tanta pressa? E a depilação?”.
“Amanhã não estaremos aqui,
veja se bebe um pouco e sorri e tira esses olhos do chão!
O futuro é lindo: eu já vi! E o avião vai directo para lá!
Vamos embora dessa aflição!”.
Bem mais animadas frescas e pintadas foram-se embora de vez.
No dia seguinte num canto da praça quem passou podia ver duas prostitutas tão deselegantes acenando p’ra você.
Bom pra caramba, né? Rachei o bico. posted by Amana Rodrigues
6:11 AM
Há meses ela não se depila e fez a sobrancelha pela última vez nem sabe quando. O cabelo está ficando branco, mais ainda do lado direito da cabeça (deve ser o lado que envelhece mais rápido, acho). E mesmo que ela pense nisso, passa várias vezes pelas caixas nas prateleiras que dizem castanho sedução, castanho mogno e marrom elegante, não se interessa por nenhuma e não leva. Faz tempo. A tesoura azul já bastava para dar uma boa aparada na selvageria entre as coxas e quase sobre elas, mas só Deus sabe onde está. Seus joelhos e os cotovelos estão cada vez mais rudes, isso sem falar nas mãos. Até comprou um creme esses dias, mas era para o corpo, descobriu porque ardia-lhe a cara, então comprou outro que era para o rosto, mas só usou uma vez. Um dia desses fez as unhas, só as das mãos, mas agora já não se nota. O frio resseca-lhe a pele dos dedos acima das cutículas, que ela irritada morde, puxa e às vezes sangra. Ontem mesmo estava com um curativo, arrancou um pedaço maior que o necessário e aquilo inflamou. Um desastre. Sua menstruação agora vem e passa como se nada fosse. E nada é, mesmo. Não fossem as dores fortes que ela ainda sente no primeiro dia, viveria como uma mulher que não menstrua. Antes não, era sangria de uma semana inteira, viva, cheia, brilhante. Parece até que deixou de viver aos ciclos. A vida lhe tem sido plana e pra onde quer que olhe não vê fim nem recomeço. É míope, coitada. E cada vez mais. Duas vezes por semana ela se anima a fazer a linha dos olhos, pelo menos, mas de pouco isso adianta por trás dos óculos sem jeito das lentes que já lascaram mais de uma vez . E a tudo isso se soma aquele vasto cabelo de madalena arrependida que ela já carrega há anos, milênios até, desde muito antes de se arrepender. posted by Amana Rodrigues
3:27 AM
Se eu pudesse passava mais um dia inteiro daqueles. Cabeça apoiada na parede, corpo atravessado na cama, sem sapato pra não sujar o lençol, se houvesse. Um travesseiro sem fronha à mão, que beleza, melhorou, tava mesmo doendo o pescoço. Mais umas duas horas assim, antes de virar de lado, rosto sobre a mão direita, travesseiro sem fronha amparando a nuca e depois mudar de novo, talvez sentar. Se eu pudesse, pedia pra tocar seu hinário todo, desde o primeiro hino, que agora é o último, até o último que eu ainda não conheço e o meu cantava várias vezes, até aprender pra sempre, igualzinho tem que ser. Um dia inteiro, se eu pusesse ter, para lavar-me do ranço dos meus meios dias. Se eu tivesse mais um dia, ouvia as suas músicas todas. E depois mais outras músicas, todas as que você tem achado bonitas. Você sempre tem razão nas músicas que canta. E depois conversa. E depois poemas. E depois um silêncio inteiro, até eu ter que voltar. posted by Amana Rodrigues
5:41 AM
Hoje seria mais um dia de folga que eu teria desperdiçado se não tivesse falado com o meu pai no fim da noite. Falar com o meu pai é sempre revigorante, pena que já trabalho daqui algumas horas... O e-mail que recebi com meu trânsito astrológico atual disse que vou ter "problemas de ordem fútil" até o meio de maio. Eu comprei uma base de pão-de-ló, um doce de leite, uma compota de cereja, um chocolate culinário e um vidrinho de chocolate granulado para fazer um bolo e cantar parabéns para o Paulo. O Paulo fez 30 anos na sexta-feira, dia 20. Eu pensei durante algum tempo sobre o equinócio, tentei atribuir algum significado pessoal à chegada da primavera, mas nada aconteceu. A base de pão-de-ló continua na embalagem, escondida sob um monte de roupas em cima da mesa da sala, afastada dos recheios e coberturas, igualmente intocados. Essa casa não tem espaço. Nenhum. Falar com o meu pai foi bom pra caramba. Ele me contou dos cães, dos gatos e dos ratos. Não consegui falar com a minha mãe, nem com a minha vó e não me lembrei de mais nenhum número enquanto estava no telefone público. Não me lembro o que estávamos conversando quando o cartão acabou. Tenho vontade de fazer uns desenhos, desses desenhos só de pauzinhos mesmo, de mim e das minhas irmãs numas cenas legais das quais me lembro, pra postar no blog e falar alguma coisa. Não tenho muitas fotografias com as minhas irmãs. Eu tenho muitas fotografias. Queria ter feito isso dia 30 de novembro do ano passado, mas não tenho tempo e aqui não tem espaço. Aqui não é espaço. Queria ter mais fotografias com as minhas irmãs, mesmo que elas não estivessem aqui comigo, como a maioria das coisas que gosto e que tenho. As fotografias eu não tenho. Ninguém tem. Estou pensando em comprar um violão, o meu está lá longe e não é insubstituível. Muito pouca coisa é insubstituível. Eu lembro que nos meus cadernos de perguntas tinha essa pergunta: "Você se acha insubstituível?", que bobagem... Eu tenho muitas lembranças. Eu tenho muitas bobagens pra lembrar, afff... Eu era a psicopata do aniversário, mas passou. Os aniversários são mesmo dias comuns (!!!) e eu realmente não compreendia isso, juro. Aliás, eu não acreditava em quase nada do que tenho comprovado nos últimos dois anos. Falar com meu pai é bom a qualquer hora e nós nunca temos alguma coisa de que precisamos mesmo falar. A minha mãe fica preocupada. Sempre que falamos ela está preocupada. Eu estou preocupada e mais que isso, não consigo tempo para me ocupar mais do que realmente deveria. Vai passar. Eu não sei tocar violão. Nunca soube. No máximo eu cozinhava qualquer coisa, fazia umas entrevistas para o Portal e dava umas aulas divertidas. Meu pudim era bom, meu macarrão era bom, minhas batatas assadas eram boas e meu picadinho tropical ficou inacreditável, mas eu nunca mais consegui lembrar o que levou, então só fiz uma vez. Eu morria de saudade dos meus alunos, agora já passou. O bolo vai ficar para amanhã, depois do meu trabalho. Eu não tenho ciúmes dos meus amigos, mas aqui eu descobri que já tive. A minha folga está acabando e eu queria ter falado um pouco mais. O cartão acabou, não deu tempo, eu não lembrei, não tive espaço e todas as desculpas possíveis, mas eu não me desculpei. posted by Amana Rodrigues
1:34 AM
casa comigo que é bom para a tosse. casa na árvore é o bom dessa vida. casa-comida-e-roupalavada. caso se encontre espere que eu ache.
caso consiga espere que eu arda. casa na árvore amanhã meio-dia. caso sem falta no fim desta tarde. case preguiça e roupa alargada. casa largada
e roupa comida. caso e comida na casa da árvore. caso contigo no fim dessa tarde. posted by Amana Rodrigues
4:22 PM
Eu tinha acabado de tomar um banho longo e delicioso, em que tive pensamentos e revelações indizíveis, quando me bateram à porta. Comecei a descer por umas escadas encarpetadas, enrolada numa enorme toalha branca. Através dos vitrais coloridos das laterais da porta, vi um vulto bem definido, que tentava olhar para dentro da casa e de repente se afastou. "Me viu"- pensei, e fiquei com medo. Quando estava no último degrau, já estava vestida e já não me parecia comigo mesma, como pude constatar pelo espelhinho do hall. "Estou mais alta", concluí, apesar de estar mesmo totalmente diferente. Abri a porta e lá estava ele, já com ares de quem estava a espera há muito tempo. Era um menino branco, de cabelos pretos e escorridos, trazia uma mala velha marrom, vestia uma camiseta amarela, bermuda, chinelos de dedo e aparentava ter uns seis anos de idade. Assim que me aproximei, estendeu-me a mala que segurava e mostrou-me a palma das mãos, que juntas, formavam uma palavra que eu não conseguia ler. Fiz várias perguntas, mas o menino não respondia, estava bravo comigo. Olhei de novo para as mãos dele e agora estavam cobertas de um barro liso e espesso que não saía, mesmo que se esfregasse com força, pois assim o fiz durante muito tempo, num silêncio aterrador. Entramos numa espécie de transe. Os olhos do menino já estavam molhados da dor dos esfregões, quando enfim puxou para si as mãos e disse - "hoje é o meu aniversário". Com o susto do fim do silêncio voltei ao normal e me senti mal por ter machucado o menino, mas ele riu e completou - "quer ver o que eu faço no dia do meu aniversário?". Pousou as mãos de barro uma sobre a outra, polegar com polegar e enquanto os afastava surgia uma enorme flor laranja enraizada no barro sobre a palavra desconhecida. "Que coisa mais linda!"- brinquei com o menino, ao que respondeu muito satisfeito - "e dá pra comer, quer ver?" - e comeu a flor.
Ter dinheiro para por os pés na terra para andar descalça pelo chão. Ter dinheiro. Para poder ter nascido brasileira graças a deus ter dinheiro. Pra sentir a respiração do filho na pele ter dinheiro para dormir cedo ou tarde ter dinheiro. Para trabalhar na terra para entrar no mar para ouvir música para tocar violão. Ter dinheiro para ter tempo para fazer dinheiro e não fazer nada para ter dinheiro. Papel para ter dinheiro para ter papel. Ter dinheiro para escrever. Para escolher ter dinheiro para ir para escola e para mudar de escola para aprender. Ter dinheiro para respirar. Para mergulhar ter dinheiro para parar. Para sair ter dinheiro para pagar para entrar para plantar para acompanhar para ver crescer. Ter dinheiro para continuar o que começou para o que comecei. Ter dinheiro para sentir frio e calor e suar e sabor e olhar e perceber. Ter dinheiro para não precisar ter. Ter dinheiro para ser. Para ser adulto para ter criança para confiar.Ter dinheiro para ganhar. Ter dinheiro para perder de vista para perder a cabeça para voltar. Ter dinheiro pra recomeçar. Ter dinheiro para oferecer. Ter dinheiro. Para chorar ter dinheiro para ir ao cinema para sentir saudade para matar alguém para copiar. Ter dinheiro para compreender. Dinheiro para deixar totalmente de entender. Ter dinheiro para conversar para confessar para ouvir para calar e ficar calado o dia inteiro. Ter dinheiro. Para não ir ter dinheiro para ficar e só. Ter dinheiro para ficar só para convidar para ir também para demorar para chegar atrasado para desistir. Ter dinheiro para não ter nada. Ter dinheiro para recusar para não dar para reter dinheiro para acumular para ser tudo o que se sonha. Ter dinheiro para fechar os olhos para ter o mínimo para ser o máximo do ser. Ter dinheiro para ter tudo o que já se tem de graça. Ter dinheiro e nunca mais ter de volta a vida toda que o dinheiro gasta.
A primeira vez que eu me casei eu tinha 4 meses de concepção, foi com o meu pai e com a minha mãe. Nós nos casamos no dia 15 de março de 1980. Estávamos lá os três, no cartório, depois na igreja, assinando documentos e recebendo bênçãos. Em agosto desse mesmo ano eu nasci e casei comigo mesma, Amana, e esse nome lindo, pra sempre. Depois disso, segui casando com quase tudo e todos que passaram pela minha vida. Eu sou apegadinha. Os amigos são os de sempre, mesmo os novos o são. Mesmo se vão embora eu permaneço fidelíssima (na lembrança ou no esquecimento), até que voltem ou não. E as coisas TODAS estão TODAS lá, sem excessão.
Dia 28 de junho de 1997 eu me casei com o Paulo, aliás, uma semana antes disso, no primeiro beijo (se é que aquilo pode ser chamado de beijo). Onze anos e cinco meses depois, longe de tudo e de todos com quem me casei pela vida afora, Paulo e eu assinamos os nossos papéis. Agora, além de Amana, sou Duarte, embora já o fosse desde que nasci.
E hoje faz um mês. Ou 11 anos e meio. Ou 11 anos, 6 meses e 1 semana.
eu sonhei que a minha mãe me olhava nos olhos pela primeira vez e perguntava
assim, com toda intenção e nenhuma palavra:
"Minha filha, o que está acontecendo?" E tudo se resolvia.
E agora eu sonho isso quase todo dia.
Eu fico passada de ver quanta gente doida tem aqui em Portugal. Será que no Brasil também é assim, só que eu nunca reparei? Todos os dias, pelo menos uma vez por dia, seja lá onde for, eu tenho um bom motivo e o desejo quase incontrolável de citar a fala da Alice (no país das maravilhas): "Mas eu não quero me encontrar com gente louca!", com uma entonação e um estado de humor diferentes para cada situação. Eu AMO os loucos daqui, na verdade. Aliás, eles são o que há de melhor. Tem um que é o meu preferido, lógico. Ele é a cara do meu vô Zizi, parece mesmo da família. Todos os dias ele me ensina alguma coisa sobre cavalos puro-sangue, éguas parideiras, posturas corretas para montaria, tipos de trote, bois, vacas, novilhos e tal... Ou melhor, tenta ensinar, já que a cada dia ele adota uma nacionalidade e uma lingua diferentes e eu começo mesmo a acreditar quando ele diz que não pode evitar que isso aconteça. Nesta última semana ele oscilou só entre o português e o espanhol, então deu pra apanhar muita coisa. Entre as nossos vários assuntos, falamos da roca de fiar. Ele perguntou se eu sabia o que era e eu disse que sim, depois fiz num guardanapo o desenho de uma roca, da forma como eu me lembrava de uma que tinha na casa da minha vó. Ele agradeceu profundamente pelo desenho e foi embora emocionadíssimo, depois voltou para me dizer tudo o que pensou sobre mim enquanto olhava o desenho em casa. Eu presto sempre muita atenção no que ele diz, pois gosto que ele goste de falar comigo e tenho medo dele deixar de aparecer de repente. No mês passado, ele entrou pela porta do café, apontou o dedo pra mim e exclamou bem alto: "Gilberto Gil!!". Parecia muito importante, mas como estava ocupada e o café lotado, não pude dar muita atenção. Quando vi ele já tinha ido embora e passou duas semanas sem dar as caras. No próximo dia em que o vi depois disso, ele entrou calado, tomou café com uma cara de ressentimento, esteve assim por uns 15 minutos e depois e me perguntou, sem me cumprimentar: "Então? Você conhece Vinícuis de Moraes?" e eu toda feliz e empolgada, achando que tudo ia voltar ao normal (se é que é possível nesta situação), respondi: "Sim, conheço!!! O senhor também gosta das músicas dele?", ao que ele simplesmente respondeu: "Não", deu as costas e foi embora. E eu fiquei uma carona de tacho. hehehe... Nessas horas eu até olho em volta pra ver se não tem nenhum gato em algum canto rindo de mim.
"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..." (Alberto Caeiro)
estava latejando muito e cada vez mais forte. achei que não ia aguentar. as poucas paredes e arcos eram de um branco encardido e a mochila que estava em minhas costas ia ficando mais pesada a cada vez que eu ia e voltava pelos caminhos ora de terra, ora de pedras. e latejava. às vezes pensava que ia sucumbir. era muito bruto. eu me sentia um animal. fechava os olhos e tinha uns microssonhos em que rasgava-lhe a carne e acabava com esta agonia. mas latejava ainda mais forte quando abria os olhos e não encontrava nada que fizesse parar. continuava andando. subindo e descendo. passava sob os arcos, a mochila pesava. latejava, latejava, latejava. de repente... um labirinto. era um labirinto! e era inútil tentar sair, porque não era eu que estava nele, mas o contrário. entendi. mas deixei de entender no minuto seguinte e me perdi de novo. a luz se foi, gradativamente, em ondas compassadas com o meu latejar, ao qual já estava totalmente entregue. desmaiei. voltei com medo, enquanto flutuava. tentei ter um microssonho pra te perguntar o que fazer, mas não consegui ver nada, estava escuro demais. então arregalei os olhos com força e de uma só vez. e estava no meu quarto.
Já é terça feira, a última antes que saia o tal Edital de Casamento no "Primeiro de Janeiro". Ontem fechamos cedo lá no café, mesmo assim, dormi tarde e acordei tarde. Tenho que procurar outra casa, esta aqui está insuportável e além disso amanhã meu endereço sai publicado pra quem quiser e eu não gosto disso. Infelizmente, já não posso mais pensar em sair por aí à procura de um T1 mobilado, pq passam das 2 da tarde, aliás, são quase 3. Anteontem tive folga e soube tããããão bem ver Barbarajoanatiago, que voltei pra casa outra pessoa. Só os quinze minutos felizes e ensolarados na ribeira, mais a conversa louca da volta pra casa já bastavam para esquentar o coração, mas ainda houve histórias de lisboa, risadas e abraços, schiele na parede com amendoim e queijo emental, nhoca de atum com tostas intermináveis e uns 5 minutos de porto x benfica. Bom demais. Foi estranho, claro que foi, tava escrito que ia ser, mas já passou. Hakuna Matata e um pouco mais de noção da próxima vez. Pelo menos eu já sei que o meu desconfiômetro ainda funciona. Blá. Hoje tá chovendo, se continuar assim noite a dentro vamos fechar cedo novamente. Eu odeio qdo chove no frio, aqui no Porto. Nada consegue ficar seco, é impressionante. A sensação é de que até a alma vai ter criado uma camada fina e gelada de limo qdo chegar o natal. Tudo fica com o mesmo cheiro incrível daquilo que está prestes a brotar. Toda superfície parece ficar fértil e os fungos aparecem, aparecem, aparecem. Mas daqui a pouco as árvores dos meus caminhos e de todos os caminhos aqui no Porto, ficam vermelhas e tão lindas que compensam até a umidade dos ossos.
Eu tenho 28.
O que mais me vem à cabeça em todo agosto de uns tantos anos pra cá é a página de um caderno meu, onde em 1996 eu escrevi que estava prestes a fazer 16 anos, mas não me sentia minimamente preparada pra isso e "ainda não me sinto" é o pensamento que sempre vem a seguir. Blá. Isso não tem nada a ver com o que eu vim aqui escrever. Ou talvez tenha. Hoje de manhã, o Paulo me avisou que tinha lá em baixo um envelope grande pra mim, na caixa do correio. Um envelope (que não seja de conta pra pagar) no correio de quem mora fora do seu país e longe de tudo o que mais ama na vida é motivo pra dia inteiro de alegria. Não deu outra. Era da minha mãe. Só dela. Só pra mim. Ela me mandou um livro infantil lindííííííssimo: "O Colecionador de Segredos". E eu me senti a criança mais feliz do mundo! Fiquei muito contente não só porque ganhei um presente-surpresa da minha mãe (quando já nem lembrava mais desse aniversário que passou-passando como nunca) mas também porque sou muito dada às coleções. Desde sempre coleciono agendas, livros infantis, discos de vinil, filmes em VHS, cartas, papeis de carta, pedaços de coisas, figurinhas e toda sorte de coisas estranhas dessa vida, principalmente segredos . (*suspiro*) Pois é... Estou fazendo 28 anos e a minha mãe me deu um livrinho infantil de presente. Mais um pra minha coleção. A infinita generosidade da minha mãe me fez ainda mais essa surpresa, mais esse carinho, mais esse ensinamento no auge da minha loucura por estar ficando velha demais pra ter ainda tanta incerteza. Esse foi, com certeza, o melhor presente que eu poderia ganhar. Aliás, ela mesma, a minha mãe é o meu melhor presente. Acontece que, assim como faziam no livrinho os que guardavam as coisas muito bem guardadas, nós duas guardamos nosso amor há muitos e muitos anos, no meio de uma bagunça de tralhas velhas, brinquedos, coisas de neném, fotografias e outras coisas que sempre acabavam parando em cima do guarda-roupa, naquela época. De lá, deve ter ido parar no quartinho da Pituxa ou em alguma gaveta de baixo, penso. Víamos pedaços aqui e ali pela casa, em cima do armarinho do banheiro, na prateleira do meu quarto-cozinha, na beira do basculante da sala. O que juntei por aí guardei junto com a minha infinita coleção de tudo, com muito cuidado e pra sempre, como o tudo que está lá. Muitos anos depois nós mudamos de casa, a bagunça também mudou e mais tempo se passou. Outros pedaços foram sendo perdidos ou encontrados e foram se misturando com outros pedaços de muitas outras coisas pelo caminho. Mudamos mais uma vez juntas. Depois me mudei sozinha, levando parte da minha bagunça e voltando com uma bagunça muito maior por dentro e por fora, que tive que guardar apertando as outras coisas no fundo. Então, há um ano e meio mais ou menos, eu me mudei pela última vez. Atravessei o mar. Vim pra longe mesmo. Trouxe comigo duas malas grandes, feitas às pressas e como desse, como a maioria das coisas importantes que eu faço na vida. E hoje, aos vinte dias de agosto de 2008 eu descobri, junto com a descoberta do presente, que o amor que vinha se desfazendo ao longo desses anos, estava em pedaços tão pequenos e tão bem misturados que era dificil de exergar, mas que ao mesmo tempo estava tão impregnado em tudo que é meu e (imagino) no que é dela, que é impossível não sabe-lo lá, o tempo todo, nas roupas, na escova de cabelo, no chinelo de dedo, nas expressões da cara, nas importâncias e nas desimportâncias de todo dia, até nas brigas e nas picuinhas (principalmente nelas, digo). Me dei conta agora, então, de que foram duas malas e um coração transbordando dessas partículas que eu trouxe comigo. E redescobrir hoje essas preciosidades é muito mais que um presente de aniversário. É um sopro de ânimo, um presente de vida, um afago na alma, um abraço de mãe. É um abraço da MINHA mãe que eu amo tanto e de quem eu sinto uma saudade secular, ancestral, cuja cura ainda está por ser inventada.
era uma vez você, mas vc não respirava. você era uma coisinha, um peixinho, uma borrachinha, uma minhoca. vc estava encolhidinha com os olhinhos fechadinhos e se alimentava do que vinha do além.
vc tinha um fiozinho, lembra? a conexão era direta. era vc a sua religião. era tão bom, era tããão bom. é que até então, ser era natural.
eu era assim também, só uma carninha e estava muito bom desse jeito. mas um dia mudou tudo. e eu já desconfiava que isso ia acontecer, mas não sabia o que era "isso". então foi assim, de repente, tudo muito rápido, e alguma coisa... que coisa, Senhor?! puxou minha primeira respiração, de uma vez só, tipo um soco, só que de ar. e eu experimentei oxigênio pela primeira vez e de novo e de novo e de novo. meu pulmão inflou e no mesmo instante o corpo inteiro sentiu. até doeu, juro. foi muito forte. achei que eu ia morrer, mas aí eu vivi.
bebi o ar uma, duas, três vezes e pra sempre.
seu corpinho também estava anestesiado de tão sensível - formigando, latejando. a sensação era incrível, mas tudo era tão novo que doía, né?, tadinha... e eu chorava também, mas não sabia porquê.
nós não tínhamos arestas ainda. éramos redondinhos, aconchegáveis, escorregadios. depois é que crescem as pontas.
a minha mãe estava lá, tão novinha... muito mais nova que eu, agora. tava tão linda, ali sozinha. olha lá ela, que gracinha... concentrada... com as veias verdes das mãos estufadas, os olhos fechados, depois abertos, ora pro céu, ora pra dentro. que vontade de estar lá hoje com ela, nascendo.
então. vc não era só o que vc é. vc era também aquele cordão enorme. um braço que ligava a sua barriga ao mundo em volta e como não havia um limite, não havia um corte, vc era também todo aquele universo, do qual vc não conhecia o fim. vc era um gigante. a maior coisa que existia no mundo e o mundo podia muito bem ser só vc mesmo, pq vc não sabia de nada e nem te interessava saber.
mas aí o infinito acabou. parte de vc jorrou e parte de vc saiu, com alguma dificuldade, por um buraco que surgiu ali na hora, ficando um pedaço enorme de vc pra trás, que foi amputado, mas não doeu. foi então que vc descobriu até onde ia seu universo, porque isso só dá pra gente saber pelo lado de fora. mas vc ainda não sentia apego e nem ligou .
e mais... mesmo ainda sendo quase toda de água, sentiu-se seca e ficou muito diferente do ambiente. antes, vc era quase a mesma coisa por dentro e por fora, agora não. os olhos quase cegaram, mesmo assim viram qualquer coisa. vc ganhou a tensão, o tempo, percebeu as dimensões e ficou pequenininha, apertada na pele fininha, mas sentiu-se bem naquele tamanho. então sentiu a gravidade não entendeu mais nada, pq apesar de estar bem menor, também estava muito mais pesada. posted by Amana Rodrigues
5:42 PM
Ontem eu fui no show do Milton Nascimento e Jobim Trio, suzinha-e-deus e não tenho nem uma fotinho sequer, nem umazinha pra comprovar o acontecido... Ah, nem... não ter mais minha camerita-de-meia-tigela pra todo canto que vou, tá tão triste... Não posso mais atender às emergências fotográficas. Snif. Hum... Foi tão bom ver aquele negão estranhíssimo a 3 metros de distância. Estranhíííííssimo! Mas na hora tava tão emocionada que só conseguia achar lindo. E de tão emocionada soltei um "eu também" em alto e bom som, empolgadíssima, depois que ele cantou "sou do mundo, sou minas gerais" o que me deixou com muita vergonha o resto do show, lógico... heheh
De repente, chegou o aniversário de um graaaande amigo meu, que não vejo há muuuuito tempo e a minha maior vontade é a de inventar um teletransporte pra poder ir lá hoje, agora, dar aquele abraço nele. AQUELE, que tá guardado há tanto tempo. Aquele, que é só dele e nunca vai ser de outra pessoa e que fica maaaais demorado e maaaais apertado a cada dia que passa, pq cresce junto com a saudade...
Ô Jaime... Pra você, meu amigo tãããão amado e tããããão querido, eu desejo a vida com os melhores sabores... Que vc tenha muita saúde, muito amor no coração e muita paz, sabedoria e coragem pra conquistar tudo o que desejar. Que seu amor (e o da Mi tb) seja completo: que nunca falte carinho, nem respeito, nem admiração, nem tesão, nem compreensão, nem amizade e nem criatividade pra reinventar o que precisar ser reinventado. Que nunca falte nem grana e nem ânimo. Desejo que vc esteja sempre bem consigo mesmo e que possa curtir, de peito aberto e alma feliz a delícia de se viver um dia depois do outro, a delícia de se reinventar todos os dias. Que a saudade bata à sua porta sim, mas sempre trazendo uma lembrança linda de presente, pra que vc fique de olhinhos molhados, mas também de um sorriso no rosto e o coração quentinho. Que o tempo passe devagar, pra que vc possa aproveitá-lo bastaaaaante, mas que também passe depressa e pra chegar logo o dia em que vou te ver e quebrar suas costelas!
Eu te amo demais da conta! Se vc estiver feliz, eu estarei muito feliz! E se vc estiver feliz demais da conta, nossa senhora, eu nem sei se eu aguento! Então, filhote, que vc seja MUUUUUIIIIITTTOOOO FELIZ e se sinta sempre muito amado, querido, lembrado, mas principamente, realizado. Que Deus continue te iluminando sempre e colocando as mais lindas pessoas na sua vida. E que seus olhos estejam sempre abertos e atentos às lindezas do caminho.
87490580 beijos pra vcs! Que esse dia seja SEU! E que vc e a Mi saibam comemorá-lo à altura, ou seja, recheando-o com os melhores sentimentos. Vc é uma pessoa muito especial. Merece ser o cara mais feliz desse mundo.
é que eu acabei de lembrar de uma parte do meu sonho que me fez querer estar ainda no brasil só para poder jogar no bicho. então. era um cão que se multiplicava em vários cães iguais, mas de cores diferentes. virava uns quatro outros cães como ele, só que um verde, um vermelho, um meio roxo e outro marrom, que era ele mesmo só que mais manso. era tipo um boxer, ou um outro qualquer desses da cara ruim. eu tava mostrando (não sei pra quem) que sabia lidar com ele(s), desde que estivesse assim, dividido (ou multiplicado?). cada um deles era parte da personalidade desse cão marrom, que era muito bravo sem se dividir. estavam já todos muito dóceis e acostumados, a me lamber as mãos no sofá, quando de repente sairam correndo para pegar um gato que estava deitado no chão de outro cômodo se debatendo que, fui perceber, estava com as unhas cravadas nos olhos dum pobre dum galo que cocoricava dolorido demais, coitado. então. pra conseguir desagarrar o gato foi mesmo muito custoso, tive que puxar com muita força pra separa-los, não consegui nem olhar pro galo depois, com medo do susto que ia levar. pus o bicho no chão com a minha cara ainda virada, e quando finalmente olhei, o que vi foi o mesmo gato com os olhos esmagados e ensanguentados, trombando cego na beirada da porta.
não sei porquê, mas meu susto foi tão grande que eu pulei da cama.
Alguém faz o favor de olhar se eu gato, galo e cachorro?
Ainda não é hoje que vou falar sobre a minha ida ao Brasil, porque vai ser MUITO difícil sintetizar e ainda estou meio anestesiada da alegria dos vinte dias que (eu já sabia) passaram em vinte minutos.
Por enquanto mando as fotos, que já dizem muita coisa, embora não digam tudo.
(é favor clicar no digníssimo cão a descansar à sombra, por detrás das folhagens)
Não sei o quão diferente eu voltei, mas pra já posso afirmar que agora sou qualquer coisa além de um poço de saudades.
Nossa! Que ódio desse blog. Eu tava aqui escrevendo pacientemente sobre a minha estada no brasil e de repente, tudo que eu tinha escrito desapareceu pra sempre. Isso que dá usar uma coisa que foi comprada pela globo. Blargh.
E Siiiiiiiiiiiiiiiiiim!
Eu voltei, Joaninha, minha lindeza!
Pra ser feliz com vocês!
Que saudadessssssss! posted by Amana Rodrigues
2:08 PM